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Ruanda: Redescobrindo o gosto de viver

A jovem mulher aproximou-se de Susana com receio. “Gostaria de lhe pedir uma coisa”, disse timidamente. “Como não tenho família, será que poderia ser minha tia?”. Susana tinha visto Chantal pela primeira vez no dia anterior, quando se encontrara com um grupo de viúvas. A vida de Chantal tinha sido destruída durante o genocídio contra os Tutsis no Ruanda, em 1994: ficou viúva, foi violada e infetada com o HIV. Susana aceitou de imediato passar a ser sua “tia” e as duas tornaram-se amigas, visitando-se uma à outra com regularidade. Chantal e os seus filhos passaram o Natal com Susana e os seus. “Voici ma tante (esta é a minha tia), estas são as minha sobrinhas”, diz Chantal com orgulho. Ela já não está só.

Os esforços de Susana para ajudar as pessoas que vivem com o HIV levaram-na a encontrar-se com Chantal. Esta foi a missão apostólica escolhida pela Comunidade de Vida Cristã (CVX) do Ruanda, de que ela faz parte. A CVX é uma rede internacional de grupos de oração que se inspira na vida e na espiritualidade do fundador dos Jesuítas, Inácio de Loiola. Quando, em 2005, a CVX do Ruanda buscava uma missão comum, não havia falta de necessidades urgentes por onde escolher. Uma década tinha passado desde o genocídio, e era incontável o número de órfãos, viúvas infetadas pelo HIV, prisões sobrelotadas, e a necessidade imperiosa de reconciliação… no final, a escolha recaiu nas pessoas que vivem com o HIV.

“Nós não somos médicos, mas vimos as necessidades espirituais das pessoas e sentimentos que as podíamos ajudar de outras formas. Descobrimos que, após receber alguma formação de base, podíamos ajudar as pessoas a recuperar a sua autoconfiança, a aceitar a sua condição e a perceber que a SIDA não é o fim de tudo”, afirma Afonso, um outro membro veterano da CVX.

O governo proporciona um tratamento médico apropriado para o HIV, mas a CVX discerniu que embora isso constitua um elemento essencial, ainda assim não é suficiente. Há “necessidades escondidas” a clamar por serem satisfeitas. A SIDA era – e, em certa medida, ainda é – uma condição envolta em desespero, negação e estigma. De acordo com aquilo que concluíram poder oferecer, a CVX escolheu uma missão muito específica: procurar pelas pessoas que vivem com o HIV e encetar uma “conversação espiritual” com elas.

Em termos simples, este conceito inaciano traduz-se na criação de laços de amizade, na escuta durante o tempo que for preciso, e na ajuda que for possível dar. O fim último é: reacender o “goût de vivre”, o gosto de viver em pessoas que renunciaram a viver. E, por fim, rezam com os seus novos amigos – qualquer que seja a sua experiência de fé.

Dez anos decorridos, esta missão tem-se fortalecido. Há 46 accompagnateurs (companheiros, “pessoas que acompanham”), provenientes das diversas comunidades, que estabeleceram amizade com 107 pessoas com o HIV. A sua ação é humilde, mas muito eficaz. Agora ajudam também os seus amigos a operar atividades modestas de geração de rendimentos (AGRs), pois deram-se conta de que as pessoas não podem viver só de oração. “Vimos logo que não podíamos ser apenas amigos, pois havia inúmeras necessidades materiais como a fome e a habitação, pelo que começámos a procurar ajudar”, disse Afonso. Contudo, acrescenta de imediato, o elemento espiritual continua a ser o aspeto central da missão.

Em 2014, a CVX abriu um pequeno centro nos jardins de um complexo jesuíta em Kigali para servir de base à sua missão. Emanuel Muhire, enfermeiro e conselheiro, dirige o Centro Ireme e coordena o apoio às AGRs, as bolsas para a educação de alguns órfãos, a ajuda aos mais necessitados e os encontros dos accompagnateurs. Emanuel faz ainda um aconselhamento mais aprofundado a quem se encontra ainda em estado de negação, oprimido pela depressão e pelo estigma.

A abordagem da CVX é deliberada e planificada, mas a amizade estabelecida com as pessoas que vivem com o HIV é inteiramente espontânea e natural. Não é algo que os membros da CVX têm de fazer; é algo que eles querem fazer. E o que mais os espanta é o modo como as pessoas com quem estabelecem amizade rejuvenescem ao receberem atenção e amor.

“Elas precisam de afeto”, afirma Susana. “Quando vêm até minha casa, quando se deslocam ao centro e Emanuel as acolhe, sentem que têm valor, que contam. Dizem: ‘Sabes que o Emanuel me acompanhou até ao portão? Sabes que me telefonou?’”.

Claudina faz eco destas palavras. Ela é magra e séria, e conta a sua história com um tom monocórdico, como só pensava em pôr termo à vida quando soube que era seropositiva, como se afastou das outras pessoas e recusou tomar a medicação. Mas ela ganha novo vigor ao falar de Emanuel: “Ele aconselhou-me muito bem e rezou por mim. Telefona-me todos os dias para saber como estou”. Visivelmente emocionada, prossegue: “Eu agora estou viva graças a ele”.

É muito exigente estar próximo de quem sofreu tanto. No início, ao verem como a doença, a depressão e a pobreza esmagavam algumas pessoas que visitavam, os membros da CVX interrogavam-se seriamente como é que conseguiriam aguentar e se o que estavam a fazer valia a pena. Ao voltarem a encontrar-se com a sua comunidade, procuravam formas de aliviar o sofrimento que tinham testemunhado.

Mas aprenderam depressa. Ivone, a responsável pela CVX no Ruanda, recorda uma das primeiras experiências: “Duas pessoas da CVX visitaram uma mulher que estava tão doente que nem se conseguia levantar. O quarto em que vivia estava um caos. Os voluntários aperceberam-se que não era possível rezar numa tal situação e fizeram a única coisa com sentido: cuidaram da mulher, levaram-lhe comida, limparam o quarto. E voltaram com frequência, uma e outra vez, até que a mulher começou a recuperar e conseguiu voltar a sair à rua. Os vizinhos ficaram assombrados, pois já a tomavam como morta”.

A Betty agora está forte, mas recorda como estava doente: “Eu estava quase a morrer. Os meus amigos e parentes abandonaram-me e os meus dois filhos não tinham o que comer. Tiveram de mendigar por comida no bairro, mas ninguém lha dava. Diziam-lhes ‘a doença da tua mãe também nos vai atingir’. Viveu desse modo durante três anos. Foi então que a CVX começou a tomar conta de mim. Quando me viram pela primeira vez, começaram a chorar. Ajudaram-me, deram-me comida e mantiveram-se muito próximos de mim”.

Muitas pessoas que vivem com o HIV absorvem a atenção que recebem porque têm vivido com imensa falta de atenção e de amor. Escondem-se por terem medo de ser rejeitadas e, infelizmente, os seus receios têm razão de ser. Ntigurirwa recorda: “Fui fazer um teste ao HIV. Estava lá também uma minha vizinha que descobriu que o meu resultado era positivo. Foi dizer aos meus outros vizinhos que me expulsaram e aos meus filhos. Ficámos sem casa onde morar”.

No Ruanda, há mulheres e jovens seropositivos que escondem um segredo doloroso muito difícil de carregar e de partilhar. Susana lembra-se de um caso emblemático: “Apenas uma criança de entre muitos irmãos nasceu com o HIV, e ela perguntava à mãe, ‘porquê só eu? Por que é que só eu devo tomar remédios?’. A mãe tinha dificuldade em explicar por que é que só elas as duas estavam doentes, mãe e filha, e veio perguntar-me, ‘o que devo dizer?’. A mãe tinha sido violada e infetada durante o genocídio e deu à luz esta menina. Quando a criança cresceu, explicou-lhe o que tinha acontecido. Como é que se diz a uma criança que o pai tinha sido um genocidaire? É uma ferida dupla tanto para a mãe como para a filha e ambas precisavam muito de acompanhamento”.

Uma marca do envolvimento da CVX, e sem dúvida um segredo do seu sucesso, é o facto de os accompagnateurs partilharem o que estão a fazer com o resto da sua comunidade. Não são comandos isolados e isso é importante por diversas razões. Luísa, que tem desempenhado esta missão desde há anos, diz: “Há momentos difíceis em que as pessoas por nós acompanhadas se sentem desencorajadas, não querem tomar a medicação, não querem falar. Isso também nos faz perder a coragem, e é então muito importante poder partilhar com outros”.

Isto está de acordo com o que a CVX apelida de DESA: Discernir, Enviar, Suster [Apoiar] e Avaliar. Os seus membros são enviados em missão pela comunidade que os apoia. Explica Afonso: “Quando descobres uma pessoa em necessidade, a tua comunidade ajuda a discernir e depois envia-te e apoia-te. Mais tarde, faz-se uma avaliação em comum”. Todos os membros da CVX estão comprometidos na missão, pela partilha, oração, oferta de donativos, recolha de fundos, oferta de alimentos e de muitas outras formas. Por vezes, a intervenção da comunidade inclui o pagamento de receitas médicas ou de propinas escolares.

Afonso dá um exemplo comovente: “Um membro da nossa comunidade descobriu uma criança que tinha SIDA e que parecia estar quase sozinha, sem família – em consequência do genocídio. A criança estava desesperada. Tomámos conta do rapaz, ajudámo-lo a conseguir tratamento médico e esforçámo-nos muito por descobrir se ele ainda tinha alguns familiares. Por fim, viemos a saber que ainda tinha alguns parentes vivos, longe de Kigali. Acompanhámos a criança para se ir encontrar com eles, que o aceitaram; houve um belo momento de reunificação, e ele ficou muito contente. A família tornou-se nossa amiga e ainda estamos em contacto com eles”.

A experiência da CVX ensinou aos seus membros que aqueles de quem se aproximam passam por um processo. “Quando estão doentes e desesperados, encontramo-nos com eles apenas para os ajudarmos a ultrapassar o pior”, diz Luísa. “Temos de estar nesta altura muito próximos destas pessoas, atentos, cuidadosos e de modo permanente, para que possam recuperar. E, quando recuperam, ficam felizes por poder comunicar, sentem-se como se estivessem a sair de um buraco muito profundo. Nesta fase, consideramos em conjunto o que há a fazer”.

Este é o momento em que a CVX procura ajudar a pessoa a ganhar o seu sustento. Algumas pessoas acompanhadas pela CVX juntaram-se para levar a cabo AGRs como grupo: até agora, vendem sabão, por eles fabricado, carvão e roupas em segunda mão, e preparam refeições para hospitais. Não se limitam a trabalhar juntos, mas reúnem-se para rezar e para partilhar aquilo por que estão a passar. O amor e a ajuda prática que recebem da CVX e uns dos outros ajuda-os a livrarem-se do medo debilitante da estigmatização.

Apesar de existirem muitos desafios, sendo o principal a falta de fundos para responder a necessidades prementes e para iniciar novas AGRs, os membros da CVX olham para o futuro com esperança. Mantêm os seus olhos firmemente focados na nova oportunidade de vida que estão a oferecer aos seus amigos e na transformação radical de que têm sido testemunhas quando as pessoas “voltam a viver, enraizadas na esperança”.