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Quénia: criar ambientes acolhedores para as pessoas com o HIV

A paróquia jesuíta de S. José Operário, em Kangemi, nos arredores de Nairobi, alberga o programa Uzima para pessoas que vivem com o HIV. O Uzima conta com 45 homens e 67 mulheres nos grupos de apoio. Eles encontram-se regularmente para partilharem as suas experiências e encorajarem-se mutuamente. Depois de termos conhecido os resultados do inquérito acerca do estigma no Quénia, apresentados durante o recente encontro nacional de diálogo acerca do HIV e da SIDA, pedimos à Norah, membro de um dos grupos de apoio do Uzima, a à Lucy, conselheira do programa, que nos dessem as suas opiniões.

Norah (na foto acima com quatro dos seus cinco filhos): “Quando vim viver para Kangemi, alguém disse-me que havia um grupo de apoio na paróquia de S. José. Fui à procura dele e marcaram-me um encontro com a conselheira. Passei a fazer parte do grupo de apoio e a minha vida transformou-se. Quando vim participar nas reuniões, descobri que havia muitas outras mães, e nunca mais voltei a sentir que eu era a única; isso era o que eu antes pensava. Eu só via a morte, não a vida. Mas, no Uzima, os nossos conselheiros encorajam-nos muito e, desde que entrei para o grupo, só vejo esperança. Passei a considerar o HIV como fazendo parte de mim, aceitei o que tenho em mim, já não acusando, não mais não aceitando. Não tenho vergonha de revelar a outros a minha condição, porque me sinto livre. O estigma desapareceu, já não o tenho. Tenho tomado os meus ARVs desde aquela altura e a minha contagem de CD4 tem estado boa. Por meio do meu grupo de apoio, vou visitar e encorajar outras pessoas em Kangemi, que vivem com o HIV e estão a sofrer, pelo que talvez as possamos ajudar. Com o Uzima vou viver durante muito tempo!”.

Lucy: “Nos 10 anos que já levo como conselheira, diria que um dos mais importantes assuntos relacionados com o estigma é revelar: quem partilhou o seu estado serológico com os seus familiares consegue mais facilmente viver sem medo. Mas isto não é fácil de fazer e é mesmo um dos passos mais difíceis de dar por parte de quem vive com o HIV. Há quem venha ao aconselhamento perguntar: O que irá acontecer quando eu revelar a minha condição? Como é que serei capaz? Aconselhamos os beneficiários mostrando-lhes a importância de revelarem a sua situação aos que lhes são mais próximos, para poderem ser ajudados quando precisarem, e também pela sua própria sensação de liberdade. Quando não estão prontos para o fazer, nós ajudamos. O que tenho visto é que, quando se dá a conhecer o que se passa, as famílias prestam um maior apoio.

Uma outra ajuda importante é as pessoas conseguirem ganhar o seu próprio sustento. Quem está ocupado com atividades geradoras de rendimento não tem muito medo. No início, quando começámos a fazer cestos, tínhamos receio de os ir vender, mas agora já percorremos um longo caminho, com um grupo de autoajuda que juntou bastante dinheiro. E isso deu-lhes autoestima. Há uma pessoa que repete sempre: ‘Foi a paróquia de S. José que fez de mim o que eu sou hoje’”.