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Quénia: Líderes religiosos em diálogo nacional comprometem-se a lutar em conjunto contra o estigma

As pessoas que vivem com o HIV no Quénia são ainda alvo de elevados níveis de estigma e, como consequência, algumas ainda evitam o tratamento. Um inquérito lançado a nível nacional com base em “experiências vividas” colocou o estigma e a discriminação no Quénia na ordem dos 45%.

Os resultados do estudo do índice de estigma foram apresentados durante um encontro nacional de diálogo entre líderes religiosos e pessoas que vivem com o HIV, que teve lugar a 18 de fevereiro. Reuniram-se em Nairobi mais de 70 pessoas para partilhar ideias e fixar estratégias para enfrentar e derrotar o estigma e a discriminação no Quénia. O tema do encontro foi: Capacitar-se mutuamente no amor e no diálogo; enfrentar o estigma do HIV e da SIDA.

Este diálogo visava compreender a evidência do estigma a partir de uma perspetiva de fé e refletir nas mudanças que há a fazer a nível individual, organizacional e institucional.

Uma das principais prioridades reside na necessidade de reavivar a informação e a consciência quanto ao HIV por parte dos líderes religiosos, incluindo a elaboração de mensagens teologicamente sólidas e livres de estigma.

“Apreciei neste encontro o acordo estabelecido pelos líderes religiosos quanto a empreender em conjunto ações para enfrentar o estigma”, afirmou Florence Anam, da Rede Nacional de Capacitação das Pessoas que vivem com o HIV/SIDA no Quénia (NEPHAK).

Falando para AJANews, Florence prosseguiu: “Esperamos que agora as pessoas que vivem com o HIV venham a ter um ambiente mais favorável para a promoção crescente de estratégias de prevenção e tratamento, o que resultará numa melhoria da sua qualidade de vida e influenciará positivamente a resposta ao HIV”.

As instituições e organizações de inspiração religiosa representam uma elevada percentagem da resposta ao HIV no Quénia. Não apenas proporcionam 42% dos cuidados de saúde disponíveis no país, como elas também representam uma autoridade moral reconhecida – nas palavras de Florence, “os africanos vivem a sua vida na fé”. E são também o primeiro porto de abrigo para inúmeras pessoas que foram de algum modo afetadas pela epidemia.

Florence afirmou que o enquadramento desta iniciativa – evidências que conduzem ao diálogo e depois à ação conjunta – deu às pessoas que vivem com o HIV a oportunidade de apresentarem as provas do estigma de que são vítimas na comunidade, que muitas vezes nem é relatado ou enfrentado, pois não há estruturas legais para esse efeito.

O inquérito revela a existência no Quénia de determinadas áreas geográficas que estão muito mais afetadas. “Não há um padrão estático de comportamento”, disse Florence. “Em lugares onde a prevalência é baixa, como o nordeste, os níveis de estigma são tremendos. As pessoas são ostracizadas. Mas, se considerarmos o distrito de Homa Bay, que apresenta a segunda maior taxa de prevalência no Quénia, depois de Nairobi, a história é muito diferente. Ali, quando perguntamos às mulheres ‘vocês sofrem a estigmatização?’, a resposta é: ‘Por quem? Tantas de nós são seropositivas!’”.

Os participantes no diálogo escutaram os relatos de como o estigma e a discriminação enchem de infelicidade e stress as pessoas que vivem o HIV e atacam a sua autoestima. Não poucas perderam os seus empregos por serem seropositivas. O medo de serem ‘descobertas’ leva a que muitas busquem tratamento longe de casa, para assegurarem não serem vistas por ninguém conhecido, uma estratégia que provoca muita perda de tempo e gastos elevados. Outras optam simplesmente por não ir ao centro de saúde e não tomar a medicação. O resultado pode ser fatal.

Jo vive num bairro nos arredores de Nairobi. Ela admite que é influenciada pelo medo do estigma. “Quando vou ao centro de saúde, tenho receio que alguém veja que sou seropositiva, porque os nossos cartões de registo são de uma cor diferente dos outros pacientes que vêm às consultas”, disse. “Em casa, escondo os meus remédios, porque não quero que a minha empregada os encontre. Mas pode acontecer que me esqueça deles à vista. Se ela se aperceber de que eu sou seropositiva, pode recusar-se a tomar conta da minha criança quando eu vou trabalhar. E ela pode começar a espalhar rumores, ao ponto de as pessoas começarem a olhar para mim quando caminho pela estrada. Não quero que isto aconteça, pelo que mantenho a minha condição tão secreta quanto possível. Posso não aguentar a pressão”.

Os participantes no diálogo concordaram que as Igrejas e outras instituições religiosas têm um papel determinante a desempenhar na luta contra o estigma e a discriminação, enfrentando as conceções erradas que os seus fiéis alimentam quanto ao HIV.

Os líderes religiosos foram também convidados a tomar em consideração um outro problema preocupante: a elevada taxa de infeção entre os jovens no Quénia. A sua atenção dirigiu-se a áreas onde podem fazer a diferença: educação abrangente acerca da sexualidade; enfrentar o abuso de álcool e de drogas; e disseminação de informação correta aos jovens, que estão agora somente a um click de distância de tantos dados incorretos, e mesmo enganadores.

Os adolescentes e os jovens representam em todo o mundo uma parcela em rápido crescimento do total das pessoas que vivem com o HIV. Somente em 2013, 670.000 novos jovens contraíram a infeção, dos quais 250.000 eram adolescentes. A África Oriental e a África Austral representam 64% dos 2,1 milhões de adolescentes que vivem no mundo com o HIV. No decurso do diálogo, uma estatística particularmente preocupante a ser referida foi que 33% das jovens quenianas já foram violadas ao chegar aos 18 anos de idade.