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Renovando o nosso compromisso por uma “fé que promove a justiça”

A SIDA é, antes de mais, um desafio urgente à justiça social e não apenas um problema médico.

Esta foi a principal mensagem do diretor da AJAN, P. Paterne Mombé SJ, aos jesuítas que se reuniram em Nairobi, de 18 a 22 de fevereiro, para um encontro dedicado ao tema da justiça. A Rede dos Centros Sociais Jesuítas de África (JASCNET) organizou uma sessão intitulada A justiça como característica de todos os apostolados jesuítas: renovando o nosso compromisso por uma fé que promove a justiça.

O P. Paterne afirmou que a SIDA fez uma opção preferencial pelos pobres e que muitos dos que estão afetados se contam entre os mais marginalizados das nossas comunidades.

Os jesuítas e seus colaboradores estão próximos de quem está afetado em cerca de 20 países da África Subsaariana, proporcionando um conjunto de serviços e facilitando o acesso aos cuidados e ao tratamento de que necessitam as pessoas que vivem com o HIV, para terem a vida em plenitude – a visão da AJAN.

Entre as principais iniciativas sublinhadas pelo P. Paterne estão a promoção do autossustento económico por meio de atividades geradoras de rendimento e de oportunidades iguais, ajudando órfãos e crianças vulneráveis a acederem à educação, formação profissional, aconselhamento e alimentação.

O P. Paterne também frisou a ação da AJAN na advocacia a nível regional, focada em três áreas temáticas: investigação quanto ao acesso aos cuidados médicos essenciais; violência sexual e com base no género; órfãos e crianças vulneráveis.

A JASCNET emitiu um comunicado resumindo as conclusões do encontro, que reproduzimos aqui na íntegra:

A justiça é um elemento integral do modo como vivemos a nossa fé cristã e a nossa identidade jesuíta. Por conseguinte, a justiça deveria permear todas as nossas obras e apostolados.

Há cada vez mais pessoas a viver nas margens do nosso mundo, devido ao fosso crescente que se estabelece entre os ricos e os pobres. A Companhia de Jesus em África reconhece que é urgentemente necessário que todos os seus ministérios deem uma resposta colaborativa e estratégica para que continuemos a trabalhar pela justiça.

Sob os auspícios do Coordenador do Apostolado Social da JESAM [Conferência dos Superiores Maiores de África e Madagáscar], teve lugar, de 20 a 21 de fevereiro de 2015, um encontro em Nairobi. Estiveram reunidos jesuítas provenientes de todo o continente em representação de diversas obras da Companhia de Jesus – incluindo o sector da educação, casas de formação, paróquias, capelanias, apostolado da oração, e os apostolados na área da SIDA – para partilharem as suas experiências e refletirem como é que a justiça social é um elemento constitutivo da nossa missão e realizações apostólicas hoje em África.

Inspirados pelas Congregações Gerais (CGs) XXXII a XXXV, reconhecemos que é urgente ultrapassar o que o Papa Francisco apelidou de “globalização da indiferença”. Fazemo-lo assegurando que formamos homens e mulheres que sejam sensíveis às necessidades dos outros – de modo muito especial às necessidades dos pobres e marginalizados.

Reconhecemos que:

- não haverá paz, estabilidade, segurança e crescimento em África enquanto não houver justiça;

- todas as nossas obras e apostolados devem ser capazes de escutar o apelo de milhões de pessoas marginalizados sob todas as formas no nosso continente;

- o binómio fé-justiça é um elemento fundamental que permeia todas as obras da Companhia de Jesus em África;

- não podemos permanecer em silêncio diante das provações que o nosso povo enfrenta quotidianamente: pobreza, guerra, injustiça económica, corrupção política, doença e falta de serviços básicos;

- nem sempre houve boa colaboração entre as diversas obras e sectores de apostolado no continente.

Por isso, comprometemo-nos a:

- renovar o nosso compromisso por uma fé que promove a justiça e por viver com maior fervor as CGs XXXII a XXXV;

- escutar o apelo do Papa Francisco a sermos uma “Igreja de pobres” (Evangelii Gaudium #198), a combatermos a “globalização da indiferença” (Evangelii Gaudium #54) e a percebermos as consequências que isso tem para nós nas nossas comunidades e apostolados;

- não ter receio dos desafios emergentes que requerem de nós novas e corajosas iniciativas, que implicam que regressemos à nossa herança, os Exercícios Espirituais, para articular o melhor caminho a seguir;

- fortalecer as nossas redes de trabalho, especialmente a nível regional, para podermos responder de modo mais colaborativo e eficaz às muitas injustiças que identificamos hoje nas nossas atividades em África;

- assegurar que os jovens jesuítas, nas nossas casas de formação, sejam bem formados para difundir uma fé que promove a justiça;

- encontrar formas de partilhar mais eficazmente os nossos recursos dentro de e entre os diversos sectores de apostolado;

- buscar formas de colaborar mais entre todos os sectores e obras (ou seja, educação, paróquias, centros sociais, apostolado do HIV/SIDA, capelanias, apostolado da oração, institutos e movimentos, etc.) para assegurar uma sinergia entre as obras em que o binómio fé-justiça é o elemento determinante;

- fortalecer a colaboração com outros religiosos e leigos para que a nossa ação de difusão de uma fé que promove a justiça seja partilhada;

- assegurar que quando os jesuítas assumem novas obras haja continuidade e não se perca a componente da fé que promove a justiça.

No final do encontro, foram elaboradas algumas recomendações para o Coordenador do Apostolado Social da JESAM, para sua consideração e da estrutura de liderança da JESAM:

- encontrar formas de retorno às fontes espirituais, de modo muito especial aos Exercícios Espirituais, para que nos renovemos na nossa opção pelos pobres e na promoção da justiça;

- explorar formas práticas pelas quais possamos criar uma sinergia em torno do binómio fé-justiça nos ministérios jesuítas em África;

- compilar histórias dos pioneiros das obras da fé e justiça em todo o continente que não tenham ficado registadas;

- procurar formas de estar mais em contacto com a realidade dos pobres – estar com eles;

- deixarmo-nos capacitar pelo Papa Francisco, pela sua afeição pelos pobres e vulneráveis e pela sua visão para a Igreja, estudando os documentos por ele escritos – como a Evangelii Gaudium;

- alargar os nossos esforços de colaborar com outros – clero/religiosos e leigos – para podermos aprender com eles e também recolher as suas melhores práticas;

- encontrar formas de alargar a nossa colaboração intersectorial nas províncias e regiões;

- encontrar formas de alargar a nossa colaboração interprovincial – começando pelo nível regional;

- encontrar formas de olhar para lá de nós próprios e dos nossos atuais colaboradores (talvez para as ONG’s e outras organizações com a mesma visão) para atrair mais pessoas à nossa missão de uma fé que promove a justiça;

- rever a nossa estratégia e não termos medo de alterar o que precisa de ser alterado, para que, por exemplo, não percamos companheiros depois da ordenação.

A Companhia de Jesus em África renova o seu compromisso para com “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (Gaudium et Spes #1). Fazemo-lo porque hoje estas “são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (Gaudium et Spes #1). É nosso desejo expresso seguir a Cristo onde quer que hoje nos encontremos a exercer o nosso ministério.

Os jesuítas de África sentem-se renovados e inspirados e reconhecem que “a luta pela justiça tem carácter progressivo e histórico, pois deve enfrentar as necessidades, sempre em mutação, de povos, culturas e tempos específicos” (CG 34, decr. 3, n. 5). Neste momento histórico, enfrentamos as necessidades dos nossos povos, culturas e tempos.