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Ruanda: Redimir o mundo

Ndorimana Emmanuel nSJ

Com os olhos da nossa imaginação, olhámos para todas as pessoas do nosso mundo, cada uma tão diferente da outra: brancas e negras; sãs e doentes, algumas com SIDA; a nascer e a morrer, umas nascidas com o HIV, outras a morrer de SIDA…

Foi desta forma que iniciámos a nossa sessão acerca da SIDA no Noviciado jesuíta de Nossa Senhora da Estrada, em Cyangugu, no Ruanda, a 17 e 18 de dezembro de 2014. O diretor da AJAN, P. Paterne Mombé SJ, conduziu-nos numa contemplação tirada dos Exercícios Espirituais de S. Inácio, o fundador dos Jesuítas.

Neste exercício, olhámos para todo o mundo a partir do olhar de Deus, tal como se estivéssemos sentados a seu lado a observar o que se passa aqui em baixo. Ao focarmos o nosso olhar em África, e especialmente na realidade da SIDA que ali se vive, descobrimos homens e mulheres, velhos e novos, ricos e pobres, alegres e tristes. Muitos estavam sem coragem, em desespero, em luta com a vida e sem encontrarem nenhum sentido. Juntamente com Deus, ouvimos pessoas a rir e a chorar, algumas a gritar, outras a rezar e outras ainda a amaldiçoar. E ouvimos Deus a dizer: “Vamos agir pela redenção da raça humana”.

Esta reflexão abriu a porta para escutarmos a história da SIDA e a resposta da Companhia de Jesus (Jesuítas) à explosão da pandemia na África Subsaariana. A partir do primeiro caso de SIDA, que foi oficialmente reportado em 1981, o P. Paterne traçou a evolução da SIDA até aos nossos dias, enfatizando os desafios que ela coloca ao nosso continente, que é de longe o mais atingido.

Foi neste contexto que foi criada em 2002 a Rede Jesuíta Africana contra a SIDA (AJAN), para combater aquela que foi então considerada como “uma das maiores ameaças para a África desde o tráfico de escravos”. Desde então, a AJAN tem exercido grande ação: o P. Paterne descreveu a gama de serviços que estão a ser implementados em muitos países pelos jesuítas e seus colaboradores para dar resposta às pessoas infetadas e afetadas pelo HIV e pela SIDA.

No fim da nossa sessão de formação, fomos convidados a juntar um “ramo de flores” com o que tínhamos aprendido e mais nos tinha impressionado. Entre as “flores” que colhemos, havia alguns espinhos: a devastação provocada pela SIDA nos seus 33 anos de existência; o mal da marginalização e estigma dirigidos a quem vive com o HIV; a grande vulnerabilidade das jovens africanas em relação ao HIV; e como há muitos fatores sociais, estruturais e legais que contribuem para o seu alastramento, entre eles a injustiça social e a violência de género.

A nossa atenção focou-se ainda no modo como todas as comunidades africanas são afetadas pela SIDA e no que poderia impedir a sua propagação. A religião, por exemplo, desempenha um papel no controlo da pandemia e, olhando para as estatísticas, o Islão parece alcançar bons resultados. Aprendemos imenso acerca dos dados científicos relativos ao HIV e à SIDA, como é que os podemos enfrentar e como os ARVs contribuem para uma redução positiva do risco de transmissão do HIV, tal como acontece com a circuncisão, que reduz a probabilidade de contaminação em 60%.

Talvez um dos mais importantes ensinamentos recebidos foi o de como as metodologias inacianas podem ser aplicadas ao serviço das pessoas que vivem com o HIV por meio dos cuidados pastorais. Por exemplo, contemplando as Escrituras juntamente com elas, acompanhando-as na sua profunda dor, desalento, desilusão, crises de fé… rumo à aceitação e integração. O nosso relacionamento com os homens e mulheres que estão infetados e afetados deveria ser muito afetuoso e encorajador – não podemos ficar indiferentes à sua sorte. Este contributo pessoal é uma das formas pelas quais nós, religiosos, podemos desempenhar um papel redentor na história da humanidade na sua luta contra uma das maiores epidemias da história moderna.