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Transformar os nossos ramos em luz da Ressurreição

Pe. Elphege Quenum SJ., Diretor da Rede Africana de Aids dos Jesuítas (AJAN)

O domingo de Ramos mergulha-nos num ambiente paradoxal de alegria e de paixão. A celebração revela-nos a glória real de Jesus e faz-nos viver a sua paixão e a sua morte. Jesus entra em triunfo em Jerusalém, anunciando a sua vitória sobre a morte a que ele será sujeito. O domingo de Ramos é por vezes a realidade quotidiana das pessoas que vivem com o HIV ou que são por ele afetadas. Elas experimentam frequentemente uma situação dolorosa marcada pelo anseio da saúde, a busca de uma vida social e económica normal liberta dos preconceitos, da estigmatização e da discriminação. Ao mesmo tempo, elas sentem a alegria nutrida pelos cuidados recebidos, pela atenção que lhes é dirigida, pela dignidade que lhes é reconhecida e pela fé numa cura total que Deus lhes pode conceder.

Passar da mistura de dor e de alegria para um puro e constante júbilo com as pessoas que vivem com o HIV é transformar os seus ramos em luz da Ressurreição. É proporcionar-lhes os cuidados de que necessitam para usufruírem de uma melhor saúde e de uma melhor vida. Tal é a missão desempenhada pela Rede Jesuíta Africana contra a SIDA que, através dos seus diversos centros em África, se coloca ao serviço das pessoas infetadas ou afetadas pelo HIV. Esta missão requer o espírito de serviço que Jesus recomenda aos seus discípulos que estavam preocupados em identificar quem era o maior entre eles.

No momento em que Jesus fala da sua paixão, a cena em seu redor remete para a imagem da nossa vida sociopolítica. O chefe é aquele que está rodeado de prestígio, que desfruta de uma quantidade de privilégios a que o cidadão comum, o doente ou a pessoa que sofre com o HIV não têm direito. O chefe é o mais forte, aquele que domina como os líderes das nações a quem os outros servem.

Mas Jesus chama a nossa atenção e o nosso interesse para o serviço, um valor construtivo e frutuoso. “Que o maior entre vós se comporte como o menor e aquele que governa como aquele que serve”. O próprio Jesus nos deu o exemplo. Ele reconfortou os mais fracos, curou os doentes, libertou os possessos e mostrou que o chefe deve agir em função do bem-estar e da felicidade de cada um/a e de todos. Se todos nós, cidadãos e líderes, pudéssemos ir à escola de Jesus, as nossas sociedades africanas estariam bem melhor. Implementaríamos então as políticas públicas e as estruturas necessárias para cuidar das pessoas frágeis das nossas sociedades, tais como os estrangeiros, os migrantes e as pessoas que vivem com o HIV e a SIDA. Não faltam exemplos de bons líderes em África. O seu número é que ainda é reduzido. Se as nossas sociedades pudessem ter em abundância os Thomas Sankara, Nelson Mandela, Patrice Lumumba e Kwame Nkrumah, seria mais agradável nelas viver. Estes líderes não foram perfeitos, mas podem inspirar-nos o sentido do bem comum, o serviço mútuo.

O Papa Francisco também nos inspira. Ainda cardeal, lavou em 2001 os pés a 12 doentes de SIDA em Buenos Aires. Em 2013, pouco depois de ser eleito Papa, lavou em Roma os pés de 12 pessoas detidas. Na sexta-feira, 12 de abril de 2019, ele beijou os sapatos dos líderes do sul do Sudão, implorando-lhes que trabalhassem pela paz em seu país devastado pela guerra.

Que o espírito de serviço nos anime e nos ajude a transformar o domingo de Ramos das pessoas frágeis em domingo da Ressurreição.